Explicador. Diplomacia à beira do abismo? Teerão e Washington sentam-se hoje à mesa em Omã

A pressão militar americana na região aumentou nas últimas semanas, com o envio de meios navais, incluindo o porta-aviões Abraham Lincoln, para o Golfo Pérsico. Paralelamente, Washington tem ameaçado recorrer à força, invocando não só o programa nuclear iraniano como também a repressão de manifestações antigovernamentais no país

Francisco Laranjeira
Fevereiro 6, 2026
7:45

O Irão confirmou que as negociações nucleares com os Estados Unidos vão decorrer esta sexta-feira, em Mascate, capital de Omã, depois de um cancelamento temporário anunciado durante a última noite e de fortes tensões diplomáticas entre as duas partes. A confirmação surge num contexto de ameaças de ação militar por parte de Washington e de crescente pressão internacional para evitar uma escalada regional.

O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi, anunciou na rede social ‘X’ que as conversações estão agendadas para sexta-feira de manhã, agradecendo às autoridades omanitas o papel de mediação e a organização do encontro. A escolha de Mascate surge após Istambul ter sido inicialmente apontada como possível local, opção que acabou por ser abandonada devido a divergências sobre o formato e o enquadramento das negociações.

Cancelamento revertido após impasse diplomático

A confirmação das conversações ocorre depois de os Estados Unidos terem cancelado, durante a noite, a reunião prevista, alegando que Teerão se recusava a aceitar condições impostas por Washington relativamente ao local e ao modelo do encontro. A decisão acabou por ser revertida, permitindo que as negociações avancem conforme planeado.

Segundo informações divulgadas por meios internacionais, vários países da região terão intercedido junto da administração americana para viabilizar o encontro, num esforço diplomático destinado a reduzir a tensão e manter aberta a via negocial entre os dois países.

Divisões sobre o conteúdo das negociações

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, tem insistido que qualquer acordo com o Irão deve ir além da questão nuclear, incluindo limitações ao programa de mísseis balísticos e ao apoio a grupos armados regionais, como o Hezbollah, no Líbano. Estas exigências são rejeitadas por Teerão, que considera as matérias de defesa como “não negociáveis” e diretamente ligadas à segurança nacional e à capacidade de dissuasão do país.

Fontes iranianas sublinham que o Irão está disponível para negociar exclusivamente dentro do âmbito nuclear, desde que exista respeito mútuo, alertando que a insistência em exigências consideradas excessivas poderá conduzir a um novo impasse.

Contexto de elevada tensão regional

As negociações retomam um processo que já conheceu várias rondas no ano passado, também em Mascate, mediadas por Omã, mas que foi interrompido após o início do conflito entre Israel e o Irão, em junho. No final de quase duas semanas de confrontos aéreos, os Estados Unidos chegaram a bombardear instalações associadas ao programa nuclear iraniano.

No último domingo, o presidente americano, Donald Trump, afirmou esperar ainda alcançar um acordo, mas voltou a advertir que o tempo para uma solução diplomática está a esgotar-se. O líder iraniano, Ali Khamenei, respondeu alertando para o risco de uma “guerra regional” caso a República Islâmica seja atacada.

A pressão militar americana na região aumentou nas últimas semanas, com o envio de meios navais, incluindo o porta-aviões Abraham Lincoln, para o Golfo Pérsico. Paralelamente, Washington tem ameaçado recorrer à força, invocando não só o programa nuclear iraniano como também a repressão de manifestações antigovernamentais no país.

As autoridades iranianas reconheceram a morte de mais de três mil pessoas nos protestos registados em janeiro, números que organizações de direitos humanos contestam, apontando para um balanço significativamente superior e para dezenas de milhares de detenções.

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